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Olhar de Nise, de Jorge Oliveira, é aplaudido de pé no Cine Odeon no Rio

Por Redação VitóriaNews
Fotos: Ricardo Gama
Fotos: Ricardo Gama

Olhar de Nise, filme de Jorge Oliveira e Pedro Zoca, sobre a psiquiatra alagoana Nise da Silveira,  foi apresentado em sessão única, segunda-feira (26) , no Cine Odeon, no Rio, com renda integralmente revertida para a Casa das Palmeiras, instituição sem fins lucrativos criada por Nise da Silveira, na década de 1950, para o atendimento de pessoas com transtornos mentais.

Sessão lotada em apresentação no cine OdeonO filme emocionou as mais de 550 pessoas que lotaram o cinema e, no fim, foi aplaudido de pé. A exemplo de Brasília, quando foi exibido no 48º Festival de Cinema, muita gente voltou depois que a bilheteria fechou uma hora e meia após o início da venda de ingressos.

A apresentação no Rio foi no dia 26 de outubroO filme, que reuniu centenas de pessoas na Cinelândia, no Centro do Rio, começou às 20h20 com a apresentação da produtora executiva e montadora do documentário, a jornalista Ana Maria Rocha, que falou da necessidade de reverter a bilheteria integralmente para a Casa das Palmeiras pela situação financeira difícil que atravessa a clínica, criada por Nise da Silveira em 1957 para atendimento aberto aos seus “clientes”, como ela chamava os seus pacientes.

O evento reuniu capixabas amigos do diretor Jorge Oliveira, como o governador do ES, Paulo Hartung, Governador Paulo Hartung com Jorge Oliveira e Ana Rochao prefeito de Vitória, Luciano Rezende, artistas, jornalistas, poetas, fotógrafos, cineastas, pintores e médicos amigos da doutora Nise, em noite de grande efervescência cultural no principal e mais antigo cinema do Rio. 

Walter Carvalho, o documentarista, jornalistas, cineastas e fotógrafos
Prefeito Luciano Rezende com Marina, o autor e a produtoraNise da Silveira, numa entrevista inédita gravada em 1997, dois anos antes de morrer, conta no filme a sua trajetória revolucionária na psiquiatria brasileira e a sua recusa em usar na época os métodos agressivos como o eletrochoque e a lobotomia na cura dos esquizofrênicos. Ela preferiu adotar a terapia ocupacional no tratamento de seus pacientes, que, pela primeira vez, tiveram seus quadros, elogiados pela crítica na época, exibidos em cinema. 

O filme conta entrevistas de amigos, colaboradores, intelectuais, artistas e ex-pacientes de Nise da Silveira que relembram os episódios da vida da psiquiatra e sua obra marcante. Entre os entrevistados estão Ferreira Gullar, Elke Maravilha, Lula Mello, Agilberto Calaça, Luitgarde Cavalcante, Marco Luchesi, Martha Pires, Bernardo Carneiro Horta, Zoé Chagas Freitas e os ex-clientes da doutora como  Milton Freire e Albertina Rocha.

“Um clássico do documentário”

Vladimir Carvalho - Documentarista

OLHAR DE NISE, de Jorge Oliveira, é um filme de extraordinária força narrativa e fidelíssimo ao colocar o espectador de cinema vis-à-vis com uma das personalidades mais marcantes da cultura e da sociedade brasileira.

Nise da Silveira está rediviva ali, de corpo inteiro, inabalável e contagiante em sua ação para transformar práticas clínicas retrógradas, para não dizer violentas e atrasadas, lutando  com todas as suas forças para vencer uma mentalidade que não tinha – e não tem – mais razão de ser.

Ela ficará na história como uma autêntica revolucionária, como criadora de um método terapêutico por via deste filme que poderá desde já ser considerado um clássico do documentário brasileiro.

A pioneira do Engenho de Dentro, lugar de verdadeira virada da psicoterapia do país, permanecerá para sempre na memória de quem a conheceu e com ela conviveu e agora passa a certa imortalidade junto em geral, até onde pode ir as imagens e os sons aliciantes de um filme exibido nos cinemas e na televisão e- espera-se – também nas escolas, como uma mensagem de esperança e fé no ser humano.

“Um filme único, sem igual!”

Bernardo Carneiro Horta - Jornalista e escritor, autor do livro Nise, Arqueóloga dos Mares

Olhar de Nise, documentário de valor extraordinário, deve-se ao trabalho, paixão e perseverança de Jorge Oliveira e Ana Maria Rocha.

Conheci dra. Nise da Silveira há 28 anos e, desde então, acompanho livros, filmes, documentários, peças teatrais e tantas obras sobre esta brasileira sem igual.

Ontem, ao ver pela primeira vez, o filme Olhar de Nise pude perceber com emoção e clareza que Jorge Oliveira e Ana Maria Rocha compuseram uma obra inteiramente diferente do que já se viu – não há outra igual.

Transcende o documentário e nos leva a uma emoção fina e contemplativa, numa experiência em que admiramos o que Nise viveu e construiu. O filme, ele próprio, revela a dedicação, a coragem e a força com que estes artistas se entregaram à criação. Esteticamente, belo. Tecnicamente, impecável. O filme tem padrão internacional para difundir vida e obra de Nise em qualquer país ou cultura. A obra é motivo de orgulho para seus realizadores e todos nós.

Muitos acertos abrilhantaram Olhar de Nise. A diversidade de entrevistados, conferindo desde a exposição técnica, passando por revelações pessoais até momentos de dramas e comicidades. As pinturas escolhidas e apresentadas em exata tonalidade. As fotos comoventes, incluindo fundamental na trajetória da Dra. A escolha dos atores Nando Rodrigues e Rafael Cardoso, gerando performance e presença lúdica.

E mais: Ana e Jorge, de sensibilidade especial, aprenderam o universo niseano, revelando-o da melhor da melhor maneira, ao neutralizar vaidades e fúrias que, eventualmente, permeiam a existência de Nise. O filme nos livra dos conflitos interpessoais de seus colaboradores e das esporádicas crises ferozes do gênio Nise, deixando-nos, assim assistir de forma esplêndida a mais importante face de sua obra, que reúne profissionalismo, paixão e, sobretudo, humanismo. Um panorama extenso e multifacetado da biografia da dama do inconsciente.

Momento especial, entre tantos outros, dá-se quando o escritor Marcos Lucchesi, (grande pessoa humana e grande intelectual), afirma que a obra de Nise da Silveira tange as obras de Francisco de Assis e Madre Teresa de Calcutá.

É fato...Dia após dia, anos, nós – que acompanhamos Nise quando vida e, agora, muito além da arte e da psiquiatria, o que se estabelece cada vez ais é seu caráter humanista.

Anjo Duro, Caralâmpia, Mestra – inesquecível...

Gratidão a Jorge e Ana. A arte os torna e nos torna sublimes em meio ao turbilhão de nossas existência. Ontem, dia da sessão única de Olhar de Nise no Odeon, foi marco de encontro e luz.

No mais, pra que mais palavras? Olhar de Nise e suas imagens estão aí e vão correr mundo. Pude ver. Estou vendo.