No velho jornalismo existe uma expressão pouco conhecida do grande público: "anos de janela". Ela identifica o profissional que passou décadas observando os acontecimentos antes de transformá-los em notícia. Não é apenas tempo de profissão. É tempo de convivência com governos, crises, avanços e retrocessos. É aprender que, antes de emitir uma opinião, convém ouvir, comparar e refletir.
Escrevo estas linhas depois de 58 anos de janela. Confesso que pouca coisa ainda consegue me surpreender. Nesse tempo vi governos nascerem e desaparecerem, planos econômicos apresentados como solução definitiva, crises políticas, escândalos que pareciam capazes de derrubar a República e outros que desapareceram na velocidade das manchetes. Em 58 anos de jornalismo, já vi até o inferno pegar fogo. Talvez por isso tenha aprendido que prudência nunca fez mal a ninguém. Antes de aplaudir ou condenar qualquer política pública, prefiro observá-la com serenidade.
É sob essa perspectiva que vejo o Projeto Sentinela ES.
Antes de qualquer ponderação, considero justo reconhecer o mérito da iniciativa anunciada pelo governador Ricardo Ferraço. O crime tornou-se mais sofisticado, utiliza tecnologia, movimenta grandes recursos e desafia diariamente as forças de segurança. Combatê-lo com ferramentas ultrapassadas seria fechar os olhos para o mundo em que vivemos.
Investir em inteligência, integração de informações, monitoramento eletrônico e recursos tecnológicos representa um caminho adotado pelas principais democracias. Se o Projeto Sentinela ES alcançar os resultados prometidos, o Espírito Santo poderá reduzir os índices de criminalidade, oferecer mais tranquilidade às famílias e tornar-se referência para outros estados. Como cidadão, torço sinceramente para que isso aconteça.
Foi durante essa reflexão que me lembrei de Eric Arthur Blair, escritor britânico que adotou o pseudônimo George Orwell. O nome literário foi inspirado no Rio Orwell, uma paisagem inglesa que admirava. Em 1949 publicou 1984, obra que atravessou gerações não porque adivinhou o futuro, mas porque compreendeu algo permanente: a delicada relação entre poder, liberdade e vigilância.
Muitos resumem 1984 à figura do "Grande Irmão", que tudo vê. A leitura, porém, vai muito além disso. Orwell não escreveu contra a tecnologia. Escreveu contra o uso da tecnologia quando ela deixa de servir ao cidadão para servir exclusivamente ao poder. Essa diferença, aparentemente pequena, continua sendo a essência do debate.
Seria um erro comparar o Projeto Sentinela ES ao universo criado por Orwell. O programa nasce em um Estado Democrático de Direito, possui objetivos claros de enfrentamento à criminalidade e deve respeitar os limites estabelecidos pela Constituição e pelas leis brasileiras.
Ainda assim, a literatura continua prestando um serviço valioso. Ela nos lembra que toda ampliação do poder do Estado precisa caminhar lado a lado com mecanismos igualmente sólidos de transparência, fiscalização e controle. Não porque se desconfie deste ou daquele governante, mas porque governos passam, enquanto os sistemas permanecem.
Depois de quase seis décadas observando a vida pública, aprendi que as instituições precisam ser mais fortes do que as pessoas. Hoje um programa pode estar nas mãos de administradores responsáveis; amanhã poderá ser conduzido por outros, com outra visão de mundo. É exatamente por isso que os limites legais existem: para proteger a sociedade, independentemente de quem ocupe o poder.
Vivemos uma época curiosa. Compartilhamos voluntariamente nossa localização, fotografias, preferências e hábitos em aplicativos que carregamos no bolso. Ao mesmo tempo, demonstramos preocupação quando o assunto é privacidade. Alguns encerram a discussão com uma frase aparentemente irrefutável: "quem não deve não teme".
A experiência, porém, ensina que a realidade é mais complexa.
A privacidade não protege apenas quem deseja esconder alguma coisa. Ela protege o médico que conversa com seu paciente, o advogado que preserva o sigilo profissional, o jornalista que resguarda suas fontes, o empresário que desenvolve um projeto inovador e o cidadão comum que simplesmente não deseja viver sob observação permanente.
Segurança pública e liberdade individual não são valores incompatíveis. Ao contrário. Uma fortalece a outra. Não existe democracia sólida sem instituições capazes de enfrentar o crime. Da mesma forma, não existe verdadeira segurança quando o cidadão perde a confiança de que seus direitos continuarão protegidos.
Talvez essa seja a maior contribuição de Orwell para o nosso tempo. Seu romance não fala apenas sobre um governo fictício. Fala sobre a necessidade de toda sociedade permanecer vigilante, inclusive em relação aos instrumentos criados para protegê-la. A democracia não enfraquece quando os cidadãos fazem perguntas; ela se fortalece.
Torço para que o Projeto Sentinela ES alcance seus objetivos e contribua para transformar o Espírito Santo em um dos estados mais seguros do Brasil.
Ao mesmo tempo, espero que esse avanço tecnológico seja permanentemente acompanhado de transparência, respeito às garantias constitucionais e fiscalização efetiva. Afinal, a melhor resposta ao crime não é escolher entre segurança e liberdade, mas construir um modelo em que ambas caminhem lado a lado.
Talvez esta seja a principal lição que aprendi depois de 58 anos olhando o mundo pela janela do jornalismo: governos mudam, tecnologias evoluem, programas públicos são aperfeiçoados ou substituídos. O que permanece é a necessidade de o cidadão acompanhar, questionar e compreender a forma como o poder é exercido. A democracia não se enfraquece quando a sociedade fiscaliza seus governantes. Ao contrário, é justamente essa vigilância permanente que impede que o poder se torne maior do que a liberdade.
Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas.