segunda-feira, 13 de julho de 2026
Opinião Pública

O apito do Trump

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

07/07/2026


O futebol sempre vendeu a ideia de que existe uma autoridade suprema dentro das quatro linhas. Chama-se árbitro. Quando ele apita, encerra-se a discussão. Pelo menos era assim até a Copa do Mundo de 2026.

Na partida entre Estados Unidos e Bósnia, o árbitro brasileiro Raphael Claus enxergou, em uma dividida de Folarin Balogun, um lance passível de expulsão. Chamado pelo VAR, reviu a jogada, confirmou a impressão inicial e exibiu o cartão vermelho. Um procedimento absolutamente previsto nas regras do futebol. Parecia o último capítulo da história.

Mas havia um detalhe que o regulamento da FIFA jamais imaginou: o telefone presidencial.

Incomodado com a expulsão do atacante norte-americano, Donald Trump resolveu fazer o que milhões de torcedores sonham em fazer diante da televisão, mas nenhum deles consegue. Ligou diretamente para Gianni Infantino, presidente da FIFA.

É verdade que Trump afirmou, depois, não ter pressionado ninguém. Disse apenas que pediu uma revisão da decisão. Naturalmente. Da mesma forma que um contribuinte liga para o ministro da Fazenda apenas para sugerir uma pequena redução no Imposto de Renda, sem qualquer intenção de influenciar.

A cena, por si só, já entraria para a história do futebol.

De um lado, o presidente da maior potência do planeta discutindo um cartão vermelho. Do outro, Gianni Infantino, advogado de formação e dirigente de carreira, alguém que jamais precisou disputar uma bola dividida para chegar ao comando da FIFA, recebendo uma ligação que certamente não fazia parte do protocolo da entidade.

Dias depois, a suspensão automática de Balogun foi revista. Coincidência? Consequência natural dos mecanismos disciplinares? Cada leitor responderá como entender melhor. O fato é que a sequência dos acontecimentos provocou um debate mundial sobre até onde vai a autonomia das entidades esportivas quando interesses políticos de enorme peso entram em campo.

Durante décadas, aprendemos que existe uma hierarquia muito clara no futebol. Primeiro decide o árbitro. Depois, se necessário, entra o VAR. Em seguida, aparecem a súmula, a comissão disciplinar, os regulamentos e os recursos.

A Copa de 2026 parece ter inaugurado mais uma etapa.

Antes da palavra final, talvez seja prudente verificar se alguém em Washington deseja fazer uma ligação.

Raphael Claus saiu do estádio acreditando que havia aplicado corretamente as regras do jogo. Descobriu, no entanto, que o futebol moderno possui uma modalidade inédita de revisão: o VAR antidiplomático.

Quem sabe, na próxima atualização das Leis do Jogo, a International Football Association Board inclua um novo procedimento. Após a análise das imagens, o árbitro aguardará alguns instantes. Não por causa da tecnologia, mas para verificar se surgiu alguma autoridade acima do VAR.

O episódio também alimentou uma comparação que há muito circula entre críticos das organizações internacionais. Para eles, a FIFA começa a lembrar a Organização das Nações Unidas: costuma agir com rigor quando o alvo pertence a países de menor peso político, mas demonstra notável prudência quando entram em cena os interesses das grandes potências. É aquela história de rosnar para um gatinho e colocar o rabo entre as pernas quando encontra um tigrão. Concorde-se ou não com essa leitura, a sequência dos acontecimentos ofereceu combustível de sobra para esse tipo de interpretação.

No futebol, sempre se repetiu que ninguém é maior do que o jogo. A Copa de 2026, porém, deixou uma dúvida incômoda. O árbitro continua carregando o apito no pescoço, mas a impressão é que, em determinadas circunstâncias, a palavra final pode não sair do gramado.

Pode chegar por uma ligação.

Ou, quem sabe, diretamente da Casa Branca.

Afinal, nesta Copa do Mundo, para muita gente ficou a sensação de que o apito continua nas mãos do árbitro. O apito final, porém, pode estar nas mãos de Trump.


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